Atropelou

A bem da verdade, até o torcedor argentino mais fanático sabia que vencer a seleção brasileira ontem era muito difícil, quase impossível.

Mesmo na hipótese dos hermanos estarem num bom momento, enfrentar o Brasil em casa, com torcida a favor, seria dureza.

Ocorre que a situação da seleção argentina nas eliminatórias é complicada como há muito não ocorria.

Nas eliminatórias para a Copa de 1994, a Argentina enfrentaria a Austrália na repescagem, em dois jogos dramáticos. Empate por 1×1 em Sidney e vitória por 1×0 em Buenos Aires, com gol solitário de Batistuta permitiram a ida da seleção para os EUA.

Antes do jogo de ontem, a situação da Argentina trazia sombrias semelhanças com duas décadas atrás. Iniciou a rodada com 16 pontos, fora do grupo dos quatro classificados.

Mas o bom técnico Bielsa tinha feito as contas e sabia que uma vitória levaria sua seleção ao grupo das classificadas. Além disso, uma vitória teria valor impactante, quebrando a sequência de quatro vitórias sob o comando de Tite e no mesmo palco do maior vexame da história do futebol brasileiro.
Bola rolando, o jogo começou morno. A Argentina tocava a bola, sem ameaçar a equipe brasileira, rolando a bola de uma lateral à outra.

Uma rixa mal-resolvida entre o volante Fernandinho e Messi parecia que seria levada para dentro de campo. Mas é um péssimo negócio cutucar um jogador como Messi. Na primeira oportunidade, o argentino humilhou Fernandinho com um chapéu de almanaque. Outras faltas renderam ao volante um cartão amarelo, logo aos primeiros minutos do jogo.

A famigerada “posse de bola” dos argentinos, omo sempre, levou os conhecidos comentaristas da era playstation a iniciarem o cansativo discurso de que a “Argentina dominava”. 

O “domínio” começou a ruir quando Phillipe Coutinho dominou na direita, veio em facão para o centro e acertou um morteiro no ângulo. O semblante de abatimento dos jogadores argentinos estampou o desânimo com o fracasso da estratégia inicial: fazer o primeiro gol e pôr o Brasil sob pressão.

A partir do gol, a seleção argentina, meio atordoada, transpareceu suas fraquezas. Uma defesa confusa, cuja zaga parece exposta com a fraca proteção de Mascherano e a velha mania de apelar para a violencia, à falta se recurso melhor.

No final do primeiro tempo, Gabriel Jesus iniciou bela jogada pelo meio e tocou para Neymar, que deu um tapa na bola, arrancou na frente do marcador e bateu no contra-pé do goleiro Romero. Se estavam desanimados, o segundo gol, na saída para o intervalo, foi um balde de água fria nos hermanos.

O segundo tempo mostrou a seleção brasileira dominando, com arrancadas de Neymar e Gabriel Jesus, os argentinos, maus perdedores, apelando para a violência e muitos gols perdidos por parte do Brasil.

O terceiro gol brasileiro, de Paulinho, selou o caixão do time argentino e levou alguns a pensar em “goleada histórica”. Isso nem passou pela minha cabeça e o time visivelmente diminuiu o ritmo, numa demonstração do respeito que os dois gigantes demonstram ter mutuamente.

Uma belíssima vitória, contra nosso maior rival, com uma boa atuação, que mantém o time na liderança, com um ponto a mais que o Uruguai. O melhor disso é comprovar o fim da era de invenções e a efetivação de talentos há muito preteridos, como Coutinho.

Faltando sete rodadas, rumo à classificação!eu 

Ufanismo moderado. Ou não?

E ontem a seleção brasileira venceu por 5×0 a seleção da Bolívia.Você não leu errado: 5×0.

Há muito tempo a seleção canarinho não aplicava uma sacolada dessas.

Ok, não foi numa das seleções que brigam por uma vaga, mas é nítida a melhora da seleção em relação aquele marasmo da era Dunga.

É um time jovem, com jogadores habilidosos e velozes.

Os gols demonstraram isso.

A defesa melhorou muito.

Daniel Alves, Marquinhos, Miranda jogam sério, sem palhaçadas. Filipe Luis ocupou ontem a vaga que é de Marcelo.

Apesar do amplo fã-clube, capitaneado pelo técnico Tite, Renato Augusto me parece um jogador comum.

Erra em quase todas as finalizações que lhe surgem.

Fernandinho ontem foi bem, mas é outro que não sobressai.

Entre Giuliano e Lucas Lima, sou mais o garoto do Santos.

Na frente, não há dúvidas.

Philippe Coutinho, que há muito já deveria ser titular, trouxe velocidade e talento ao meio-campo.

É estranho ouvir Tite falar que ele “disputa posição” com William. Prefiro considerar como brincadeira.

Neymar, apesar da insistência em prender a bola, é um extra-série.

Gabriel Jesus vem crescendo jogo a jogo. Rápido, oportunista e preciso, superou a tendência individualista do seu início na seleção.

É bem verdade que a seleção boliviana não ameaçou o gol de Alisson e não possui um único jogador perigoso.

Teste mesmo teremos em novembro diante da Argentina.

Até lá é aturar a verborragia meio chata do Tite, que periga – nesse particular – se tornar um “profexo” Luxemb‎urgo, com faróis xenon, banco de couro, freios ABS e pintura perolizada.

Nada a ver, tudo a ver

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Naturalmente, os gaiatos de sempre não perderiam a oportunidade.
“Revanche”, “vingança” e outras papagaiadas povoaram as manchetes e comentários.
Mas não havia muito como estabelecer outras coincidências além dos times protagonistas.
A seleção brasileira jogando bem no primeiro tempo, apesar de alguns erros no último passe, na atenção no momento do toque.
A seleção alemã determinada, de toque preciso, procurando decidir num contra-ataque, carimbando o travessão brasileiro, mas sem um talento destacado, fortalecida no conjunto.
O gol brasileiro surgiu num lance de bola parada, numa falta muito bem cobrada por Neymar, sem chances para o bom goleiro alemão.
Com um pouco mais de atenção e capricho, o time poderia ter feito o segundo gol e praticamente liquidado o jogo.
O segundo tempo foi diferente.
Repetindo uma característica preocupante de nossas seleções, a vantagem no placar, ainda que mínima, dá ao elenco uma certa acomodação.
Sucedem-se erros primários de passes, seja por imprecisão ou toques curtos demais.
Sem contar as falhas preocupantes na saída de bola, permitindo lances de perigo para a Alemanha.
E justamente num desses erros, numa bola rasteira cruzada na área, o belo arremate de primeira, empatando o jogo.
Previsível e esperado, vide que a Alemanha já havia carimbado nosso travessão.
Definitivamente, não estávamos jogando com bobos, longe disso.
Empateno tempo normal, empate na prorrogação e a decisão nos pênaltis.
Com a defesa do goleiro Weverton na penúltima cobrança alemã, coube a Neymar sacramentar a conquista da tão aguardada medalha de ouro no futebol.
Uma conquista de valor, a única que nossa seleção ainda não tinha.
Mas findo o jogo, voltou o exercício preferido de alguns comentaristas: destacar pontos negativos, hipervalorizar detalhes insignificantes e fantasiar, delirar.
Já teve gente falando em “recomeço do futebol brasileiro”, “honra lavada”, “vingança” e outras idiotices.
No outro extremo, paspalhos falando que “ganhamos de uma seleção desfalcada” e “era prá ter si outro 7×1”.
Foi apenas uma vitória.
Merecida, suada e sofrida.
Poderíamos ter perdido, mas ganhamos.
Mais sensato enxergar assim.

Tite, um cara de coragem

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Num país como o nosso, a imprensa – aí arrolados revistas, jornais, emissoras de rádios, canais de tv, sites da web, etc. – sempre se arvoraram a ser “voz, coração e mente” da sociedade.
Assim, interpretam que tem o poder e autoridade para ditar rumos, ações, atitudes e comportamentos.
Quando isso não ocorre, é visível a frustração e reagem, a seu modo.
Podemos ver isso, no meio de futebol,na última semana, quando a CBF dispensou o técnico Dunga, após a eliminação na Copa América.
Após o mistério de sempre, revelou-se que Tite, então técnico do Corinthians, seria o escolhido.
A comoção foi imediata.
Tite, por várias razões, é visto como muita simpatia – para alguns, excessiva – por alguns gigantes da mídia.
Educado, articulado, em alguns momentos tendendo a prolixidade, ele sempre foi figurinha carimbada em programas esportivos.
Ocorre que, a cerca de seis meses, para júbilo de alguns desses, ele emitiu uma carta com fortes críticas à cúpula da CBF.
Foi saudado como corajoso, revolucionário, atalaia de mudanças, patati-patatá.
Então, para a mídia, o enredo a ser cumprido por Tite seria recusar o convite e ainda falar uns desaforos para a CBF.
Mas Tite, compreensivelmente, aceitou o convite.
Como alguém alegou, com razão, é que o sonho de todo técnico – daqui e de outros países – se ofereceu a ele, então ele fez o que todo técnico faria.
Além disso, caso recusasse, a diretoria da CBF continuaria intocada e ele talvez não fosse convidado nunca mais.
Aceitando o convite, ele virou alvo de alguns cardeais da grande mídia.
Para alguns, virou até um arremedo de mau-caráter, como pude ouvir ontem.
Até mesmo aqueles que entenderam sua atitude não perderam a oportunidade de lançar insinuações quanto à falta de solidez de caráter.
Considero essas atitudes mesquinhas, como aliás considero quase tudo que parte da grande mídia.
Se Tite fez o certo ou errado, não nos cabe julgar.
Já passou da hora da grande imprensa começar a ser contrariada, a ver que as pessoas não são obrigadas a seguir seu enredo pré-definido.
Embora mínima, a atitude de Tite é emblemática.
Que outros sigam seu exemplo.

Melhor assim

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No prazo de uma semana, a seleção brasileira conseguiu ser eliminada ainda na fase inicial da Copa América, disputando vaga com as medíocres seleções do Peru, Equador e Haiti.
Quem, como eu, foi dormir de madrugada, acompanhando a sonolenta estréia diante do Equador, percebeu o tamanho da encrenca.
O técnico não conseguiu ‎impor na seleção um estilo de jogo, jogadas ensaiadas, etc.
Pior, insiste com jogadores medianos, operários da bola, sem brilho para envergar a camisa da seleção.
Exemplos? Elias, um volante limitado.
O empate sem gol deixou claro que seriam necessárias mudanças, ousadias.
Nem um coisa nem outra.
A goleada diante do Haiti, pelo mítico placar de 7×1, rendeu piadas e gracejos. E só.
Quem assistiu ao jogo viu um time displicente, com jogadores perdendo gols ora por preciosismo estéril ou por incompetência mesmo.
E veio o jogo contra o Peru, outro time medíocre, que não vencia a seleção há mais de trinta anos.
Nenhuma mudança marcante, exceto a entrada de Lucas Lima e Robigol no ataque.
Desconfio que o supremo sacrilégio de vestir a camisa 10 no Lucas Lima cobrou seu preço.
Errou tudo que tentou, tropeçou na bola e nem de longe lembrou um bom jogador.
Mas não foi o único fiasco.
Na defesa, as trapalhadas de sempre.
Gil e Fellipe Luiz não seriam convocados nem para seleções de base nos áureos tempos.
Elias é o símbolo desse momento opaco da seleção: limitado, inseguro, esforçado, passa-me a impressão que sua convocação atende a interesses exclusivos de empresários.
Hoje, existem jogadores melhores para a posição, tanto no exterior, como no campeonato brasileiro.
Nosso meio-campo, setor cerebral de qualquer equipe, deixa muito a desejar.
Willian estava perdido, com seu arsenal de firulas e bolas para o lado.
E no ataque, tínhamos Robigol, correndo para um lado e para outro, inutilmente, pois não recebia nenhum passe em boas condições.
O empate sem gol persistiu até por volta dos trinta e poucos do segundo tempo, quando Rui Diaz empurrou a bola para dentro do gol com a mão.
Após o gol, mais um capítulo no enredo de comédias da arbitragem da Copa América: o juiz, confuso, claramente consultou um agente externo – imagino que tenha sido Stevie Wonder – e validou o gol.
As imagens mostram claramente que o gol foi irregular, mas isso é o de menos.
Se não saíssemos agora, existia o risco de outra derrota vexatória, dessa vez para um adversário local.
Só para registrar, Paulo Henrique Ganso, convocado e desfalcando seu clube, foi passear, não participando de nenhum jogo.
As perspectivas para as Olimpíadas, caso Dunga continue à frente, não são as melhores, mesmo contando com o retorno de Neymar.
E assim caminha nosso outrora melhor futebol do mundo.

Teatro inútil

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O protocolo comum da entrada das equipes para os jogos do estadual do Rio foi quebrado ontem, na arena da Amazônia.
Normalmente, os jogadores das equipes, acompanhados dos mascotes, adentram lado a lado em direção ao centro do gramado.
Naruralmente, uma atitude cheia de simbolismos.
Entrando lado a lado, mostram que não são inimigos, são apenas adversários. As crianças que os acompanham espelham a inocência, a alegria e a esperança.
Para aqueles pequenos torcedores, um momento mágico, ansiosamente aguardado.
Mas aí algum “jênio” do departamento de marketing – reduto de algumas das figuras mais pitorescas – teve a idéia genial.
O grupo abre mão da presença das crianças, ignora-as.
Entra sem a companhia do adversário, correndo no gramado, de forma destemida, independente, arrojada.
Avança até o meio do campo, sob a ovação da massa – maioria no estádio – e, num gesto forte, crava a bandeira do clube no gramado.
De forma figurada, conquista o território, delimita seu espaço e sinaliza para o maior rival que hoje a história será diferente.
Só faltou combinar com os russos…

Seleção e teimosia

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Ontem, imediatamente após o primeiro gol do Paraguai, aos 40 minutos do primeiro tempo, o pitoresco Luis Carlos Jr, do Sportv, lançou o infame “nesse momento a seleção está fora da Copa”.
Era verdade? Sim, claro, mas o tipo de verdade irrelevante, se é que o termo existe.
Findo o jogo, embora em sexto lugar, ainda faltam nada menos que 12 rodadas.
Isso posto, ‎a verdade que vem sendo ignorada é que talvez tenhamos hoje a pior defesa de todos os tempos.
Sempre‎ surgirá um iluminado com estatísticas e scouts, mostrando que os desarmes estão na média, patati-patatá.
No entanto, me refiro a termos práticos.
Ainda está viva na memória de todos os habitantes do planeta a humilhação histórica da goleada diante da Alemanha.
O apatetado zagueiro da ocasião, David Luiz, permanece como titular.
Inseguro, parece meio perdido em campo, erra nos botes aos atacantes, não consegue bloquear os arremates e é driblado com extrema facilidade. Um horror.
O restante não está muito melhor.
Filipe Luiz é violento e atabalhoado.
Miranda parece sobrecarregado e frequentemente aparece vendido nos lances de perigo.
Gil, do Corinthians, mostrou mais firmeza que David Luiz, mas estamos falando de seleção.
O melhor – ou menos pior – ainda é Daniel Alves.
Seria recomendável Dunga deixar de lado seu pragmatismo e procurar opções.
Suas decisões – ou teimosias – seguem o padrão de todos os técnicos de seleção brasileira.
Por exemplo, convoca Philipe Coutinho, mas não o põe para jogar.
Insiste com nulidades como Luis Gustavo e Fernandinho, jogadores sem bagagem e expressão.
Promove alterações mal explicadas, como sacar o bom goleiro Jefferson, sem dar razões claras.
O resumo da ópera é que teremos meses de muita emoção, embora acreditecque uma vaga, como sempre foi, será de nossa seleção.‎