A selvageria de sempre

Um jogo que deveria ser reverenciado como uma virada sensacional, está hoje nas páginas esportivas ao redor do mundo como mais um vexame do futebol sul-americano.

Antes de mais nada, quero ressaltar que sou absolutamente contra a tese “pacifista trouxa” que alguns comentaristas criados em condomínio, sob os cuidados da avó zelosa, defendem.

Quem já disputou aqueles saudosos torneios de peladas de bairros, em campos de terra, com a torcida tão perto que davam gravatas nos cobradores de escanteio, sabe como a banda toca.

Pancada de lá, pancada de cá. Assim delimita-se a fronteira. Nesse ponto, o truculento Felipe Melo está correto.

Infelizmente, o maior e mais competitivo torneio das Américas sofre com a fama adquirida nos anos 60.

Na ocasião, era comum que as partidas fossem autênticas competições de luta-livre, com arbitragens intimidadas pela fúria selvagem da torcida local.

Vem dessa época a fama de “times raçudos”, atribuída a equipes argentinas e uruguaias. Nada mais enganoso. Na verdade, o que havia eram times extremamente violentos, a tal ponto que no final dos anos 60, os times europeus simplesmente passaram a se recusar a disputar a final do Mundial Interclubes com equipes sul-americanas.

Nos anos 80, a situação deu uma leve acalmada. Mas se a triste imagem símbolo da Libertadores – soldados com escudos protegendo jogadores para a ccobrança de escanteio – diminuiu, a mídia tem se esforçado para que a aura de agressividade e “vale-tudo” perdure.

Nas transmissões de certo canal de tv a cabo, por exemplo, cada carrinho criminoso ou cada voadora nos peitos é saudado com o refrão “Isso é Libertadores”.

Então, que assim seja!

Atropelou

A bem da verdade, até o torcedor argentino mais fanático sabia que vencer a seleção brasileira ontem era muito difícil, quase impossível.

Mesmo na hipótese dos hermanos estarem num bom momento, enfrentar o Brasil em casa, com torcida a favor, seria dureza.

Ocorre que a situação da seleção argentina nas eliminatórias é complicada como há muito não ocorria.

Nas eliminatórias para a Copa de 1994, a Argentina enfrentaria a Austrália na repescagem, em dois jogos dramáticos. Empate por 1×1 em Sidney e vitória por 1×0 em Buenos Aires, com gol solitário de Batistuta permitiram a ida da seleção para os EUA.

Antes do jogo de ontem, a situação da Argentina trazia sombrias semelhanças com duas décadas atrás. Iniciou a rodada com 16 pontos, fora do grupo dos quatro classificados.

Mas o bom técnico Bielsa tinha feito as contas e sabia que uma vitória levaria sua seleção ao grupo das classificadas. Além disso, uma vitória teria valor impactante, quebrando a sequência de quatro vitórias sob o comando de Tite e no mesmo palco do maior vexame da história do futebol brasileiro.
Bola rolando, o jogo começou morno. A Argentina tocava a bola, sem ameaçar a equipe brasileira, rolando a bola de uma lateral à outra.

Uma rixa mal-resolvida entre o volante Fernandinho e Messi parecia que seria levada para dentro de campo. Mas é um péssimo negócio cutucar um jogador como Messi. Na primeira oportunidade, o argentino humilhou Fernandinho com um chapéu de almanaque. Outras faltas renderam ao volante um cartão amarelo, logo aos primeiros minutos do jogo.

A famigerada “posse de bola” dos argentinos, como sempre, levou os conhecidos comentaristas da era playstation a iniciarem o cansativo discurso de que a “Argentina dominava”. 

O “domínio” começou a ruir quando Phillipe Coutinho dominou na direita, veio em facão para o centro e acertou um morteiro no ângulo. O semblante de abatimento dos jogadores argentinos estampou o desânimo com o fracasso da estratégia inicial: fazer o primeiro gol e pôr o Brasil sob pressão.

A partir do gol, a seleção argentina, meio atordoada, transpareceu suas fraquezas. Uma defesa confusa, cuja zaga parece exposta com a fraca proteção de Mascherano e a velha mania de apelar para a violencia, à falta se recurso melhor.

No final do primeiro tempo, Gabriel Jesus iniciou bela jogada pelo meio e tocou para Neymar, que deu um tapa na bola, arrancou na frente do marcador e bateu no contra-pé do goleiro Romero. Se estavam desanimados, o segundo gol, na saída para o intervalo, foi um balde de água fria nos hermanos.

O segundo tempo mostrou a seleção brasileira dominando, com arrancadas de Neymar e Gabriel Jesus, os argentinos, maus perdedores, apelando para a violência e muitos gols perdidos por parte do Brasil.

O terceiro gol brasileiro, de Paulinho, selou o caixão do time argentino e levou alguns a pensar em “goleada histórica”. Isso nem passou pela minha cabeça e o time visivelmente diminuiu o ritmo, numa demonstração do respeito que os dois gigantes demonstram ter mutuamente.

Uma belíssima vitória, contra nosso maior rival, com uma boa atuação, que mantém o time na liderança, com um ponto a mais que o Uruguai. O melhor disso é comprovar o fim da era de invenções e a efetivação de talentos há muito preteridos, como Coutinho.

Faltando sete rodadas, rumo à classificação!

Ufanismo moderado. Ou não?

E ontem a seleção brasileira venceu por 5×0 a seleção da Bolívia.Você não leu errado: 5×0.

Há muito tempo a seleção canarinho não aplicava uma sacolada dessas.

Ok, não foi numa das seleções que brigam por uma vaga, mas é nítida a melhora da seleção em relação aquele marasmo da era Dunga.

É um time jovem, com jogadores habilidosos e velozes.

Os gols demonstraram isso.

A defesa melhorou muito.

Daniel Alves, Marquinhos, Miranda jogam sério, sem palhaçadas. Filipe Luis ocupou ontem a vaga que é de Marcelo.

Apesar do amplo fã-clube, capitaneado pelo técnico Tite, Renato Augusto me parece um jogador comum.

Erra em quase todas as finalizações que lhe surgem.

Fernandinho ontem foi bem, mas é outro que não sobressai.

Entre Giuliano e Lucas Lima, sou mais o garoto do Santos.

Na frente, não há dúvidas.

Philippe Coutinho, que há muito já deveria ser titular, trouxe velocidade e talento ao meio-campo.

É estranho ouvir Tite falar que ele “disputa posição” com William. Prefiro considerar como brincadeira.

Neymar, apesar da insistência em prender a bola, é um extra-série.

Gabriel Jesus vem crescendo jogo a jogo. Rápido, oportunista e preciso, superou a tendência individualista do seu início na seleção.

É bem verdade que a seleção boliviana não ameaçou o gol de Alisson e não possui um único jogador perigoso.

Teste mesmo teremos em novembro diante da Argentina.

Até lá é aturar a verborragia meio chata do Tite, que periga – nesse particular – se tornar um “profexo” Luxemb‎urgo, com faróis xenon, banco de couro, freios ABS e pintura perolizada.

Nada a ver, tudo a ver

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Naturalmente, os gaiatos de sempre não perderiam a oportunidade.
“Revanche”, “vingança” e outras papagaiadas povoaram as manchetes e comentários.
Mas não havia muito como estabelecer outras coincidências além dos times protagonistas.
A seleção brasileira jogando bem no primeiro tempo, apesar de alguns erros no último passe, na atenção no momento do toque.
A seleção alemã determinada, de toque preciso, procurando decidir num contra-ataque, carimbando o travessão brasileiro, mas sem um talento destacado, fortalecida no conjunto.
O gol brasileiro surgiu num lance de bola parada, numa falta muito bem cobrada por Neymar, sem chances para o bom goleiro alemão.
Com um pouco mais de atenção e capricho, o time poderia ter feito o segundo gol e praticamente liquidado o jogo.
O segundo tempo foi diferente.
Repetindo uma característica preocupante de nossas seleções, a vantagem no placar, ainda que mínima, dá ao elenco uma certa acomodação.
Sucedem-se erros primários de passes, seja por imprecisão ou toques curtos demais.
Sem contar as falhas preocupantes na saída de bola, permitindo lances de perigo para a Alemanha.
E justamente num desses erros, numa bola rasteira cruzada na área, o belo arremate de primeira, empatando o jogo.
Previsível e esperado, vide que a Alemanha já havia carimbado nosso travessão.
Definitivamente, não estávamos jogando com bobos, longe disso.
Empateno tempo normal, empate na prorrogação e a decisão nos pênaltis.
Com a defesa do goleiro Weverton na penúltima cobrança alemã, coube a Neymar sacramentar a conquista da tão aguardada medalha de ouro no futebol.
Uma conquista de valor, a única que nossa seleção ainda não tinha.
Mas findo o jogo, voltou o exercício preferido de alguns comentaristas: destacar pontos negativos, hipervalorizar detalhes insignificantes e fantasiar, delirar.
Já teve gente falando em “recomeço do futebol brasileiro”, “honra lavada”, “vingança” e outras idiotices.
No outro extremo, paspalhos falando que “ganhamos de uma seleção desfalcada” e “era prá ter si outro 7×1”.
Foi apenas uma vitória.
Merecida, suada e sofrida.
Poderíamos ter perdido, mas ganhamos.
Mais sensato enxergar assim.

Tite, um cara de coragem

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Num país como o nosso, a imprensa – aí arrolados revistas, jornais, emissoras de rádios, canais de tv, sites da web, etc. – sempre se arvoraram a ser “voz, coração e mente” da sociedade.
Assim, interpretam que tem o poder e autoridade para ditar rumos, ações, atitudes e comportamentos.
Quando isso não ocorre, é visível a frustração e reagem, a seu modo.
Podemos ver isso, no meio de futebol,na última semana, quando a CBF dispensou o técnico Dunga, após a eliminação na Copa América.
Após o mistério de sempre, revelou-se que Tite, então técnico do Corinthians, seria o escolhido.
A comoção foi imediata.
Tite, por várias razões, é visto como muita simpatia – para alguns, excessiva – por alguns gigantes da mídia.
Educado, articulado, em alguns momentos tendendo a prolixidade, ele sempre foi figurinha carimbada em programas esportivos.
Ocorre que, a cerca de seis meses, para júbilo de alguns desses, ele emitiu uma carta com fortes críticas à cúpula da CBF.
Foi saudado como corajoso, revolucionário, atalaia de mudanças, patati-patatá.
Então, para a mídia, o enredo a ser cumprido por Tite seria recusar o convite e ainda falar uns desaforos para a CBF.
Mas Tite, compreensivelmente, aceitou o convite.
Como alguém alegou, com razão, é que o sonho de todo técnico – daqui e de outros países – se ofereceu a ele, então ele fez o que todo técnico faria.
Além disso, caso recusasse, a diretoria da CBF continuaria intocada e ele talvez não fosse convidado nunca mais.
Aceitando o convite, ele virou alvo de alguns cardeais da grande mídia.
Para alguns, virou até um arremedo de mau-caráter, como pude ouvir ontem.
Até mesmo aqueles que entenderam sua atitude não perderam a oportunidade de lançar insinuações quanto à falta de solidez de caráter.
Considero essas atitudes mesquinhas, como aliás considero quase tudo que parte da grande mídia.
Se Tite fez o certo ou errado, não nos cabe julgar.
Já passou da hora da grande imprensa começar a ser contrariada, a ver que as pessoas não são obrigadas a seguir seu enredo pré-definido.
Embora mínima, a atitude de Tite é emblemática.
Que outros sigam seu exemplo.

Melhor assim

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No prazo de uma semana, a seleção brasileira conseguiu ser eliminada ainda na fase inicial da Copa América, disputando vaga com as medíocres seleções do Peru, Equador e Haiti.
Quem, como eu, foi dormir de madrugada, acompanhando a sonolenta estréia diante do Equador, percebeu o tamanho da encrenca.
O técnico não conseguiu ‎impor na seleção um estilo de jogo, jogadas ensaiadas, etc.
Pior, insiste com jogadores medianos, operários da bola, sem brilho para envergar a camisa da seleção.
Exemplos? Elias, um volante limitado.
O empate sem gol deixou claro que seriam necessárias mudanças, ousadias.
Nem um coisa nem outra.
A goleada diante do Haiti, pelo mítico placar de 7×1, rendeu piadas e gracejos. E só.
Quem assistiu ao jogo viu um time displicente, com jogadores perdendo gols ora por preciosismo estéril ou por incompetência mesmo.
E veio o jogo contra o Peru, outro time medíocre, que não vencia a seleção há mais de trinta anos.
Nenhuma mudança marcante, exceto a entrada de Lucas Lima e Robigol no ataque.
Desconfio que o supremo sacrilégio de vestir a camisa 10 no Lucas Lima cobrou seu preço.
Errou tudo que tentou, tropeçou na bola e nem de longe lembrou um bom jogador.
Mas não foi o único fiasco.
Na defesa, as trapalhadas de sempre.
Gil e Fellipe Luiz não seriam convocados nem para seleções de base nos áureos tempos.
Elias é o símbolo desse momento opaco da seleção: limitado, inseguro, esforçado, passa-me a impressão que sua convocação atende a interesses exclusivos de empresários.
Hoje, existem jogadores melhores para a posição, tanto no exterior, como no campeonato brasileiro.
Nosso meio-campo, setor cerebral de qualquer equipe, deixa muito a desejar.
Willian estava perdido, com seu arsenal de firulas e bolas para o lado.
E no ataque, tínhamos Robigol, correndo para um lado e para outro, inutilmente, pois não recebia nenhum passe em boas condições.
O empate sem gol persistiu até por volta dos trinta e poucos do segundo tempo, quando Rui Diaz empurrou a bola para dentro do gol com a mão.
Após o gol, mais um capítulo no enredo de comédias da arbitragem da Copa América: o juiz, confuso, claramente consultou um agente externo – imagino que tenha sido Stevie Wonder – e validou o gol.
As imagens mostram claramente que o gol foi irregular, mas isso é o de menos.
Se não saíssemos agora, existia o risco de outra derrota vexatória, dessa vez para um adversário local.
Só para registrar, Paulo Henrique Ganso, convocado e desfalcando seu clube, foi passear, não participando de nenhum jogo.
As perspectivas para as Olimpíadas, caso Dunga continue à frente, não são as melhores, mesmo contando com o retorno de Neymar.
E assim caminha nosso outrora melhor futebol do mundo.

Teatro inútil

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O protocolo comum da entrada das equipes para os jogos do estadual do Rio foi quebrado ontem, na arena da Amazônia.
Normalmente, os jogadores das equipes, acompanhados dos mascotes, adentram lado a lado em direção ao centro do gramado.
Naruralmente, uma atitude cheia de simbolismos.
Entrando lado a lado, mostram que não são inimigos, são apenas adversários. As crianças que os acompanham espelham a inocência, a alegria e a esperança.
Para aqueles pequenos torcedores, um momento mágico, ansiosamente aguardado.
Mas aí algum “jênio” do departamento de marketing – reduto de algumas das figuras mais pitorescas – teve a idéia genial.
O grupo abre mão da presença das crianças, ignora-as.
Entra sem a companhia do adversário, correndo no gramado, de forma destemida, independente, arrojada.
Avança até o meio do campo, sob a ovação da massa – maioria no estádio – e, num gesto forte, crava a bandeira do clube no gramado.
De forma figurada, conquista o território, delimita seu espaço e sinaliza para o maior rival que hoje a história será diferente.
Só faltou combinar com os russos…